sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Boneca de pano

Talvez eu seja uma boneca de pano, cujo coração foi roubado. E um rombo gigantesco foi deixado em meu peito. De repente, veio uma dor forte e se instalou em mim. E ficou, em cada metro do meu corpo rendado, com meus panos e babados. Os meus vestidos perderam a cor, independentemente do cair da noite ou levantar do dia. Eles só eram propícios se mais próximos do negro que me abrangia. Chegou uma hora em que nãos os quis mais trocar, não fazia diferença.

Todo dia eu acordava e botava minha mão sobre meu peito, apertava-o e não sentia nada. Até que, uma noite escura e menos sombria, eu vi um clarão no canto da minha cama. Cheguei minhas mãos até ele e encontrei ali, meu coração. Abri meu amário, peguei minha caixa de costura e retirei a atadura de papel que cobria meu peito de pano. Coloquei meu coração de volta e o costurei, cuidadosamente. Talvez eu realmente seja essa boneca de pano com o coração resgatado. Porque, sim, ele voltou pra mim, meus vestidos de pano o cobrem, eu o abrigo. Mas não o sinto assim. Ele voltou intacto, e este foi o problema. O coração da triste boneca de pano não fora amado como amara, não fora desejado como desejara e não teve o que quis.

O coração da boneca não era nada além de um pedaço fofo de pano,em formato reconhecível. Ele não fora modificado, pior, não fora roubado! 

A bonequinha queria que algém a amasse como ela o amaria e, para isso, teria de ter consigo uma parte de seu coração. Mas vendo-o voltar intacto, percebeu que sua missão fora incompleta, sem sucesso. Talvez eu realmente seja esta boneca de pano, cujo coração roubado não foi amado, cujas pessoas em volta não se misturam, cujo caminho é um ponto de interrogação.

E, principalmente, cuja procura será guiada até que encontre aquele pedacinho mínimo de seu coração, que ainda não percebeu sumir, mas que fora roubado, discretamente, para ser modificado, tocado e amado.

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